Crônicas das coisas mínimas e desnecessárias

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Encontro de poetas, ao lado do Cão sem plumas

15 de agosto de 2008, às 9:45h por Samarone Lima


Foto: Fred Jordão

Estou sentado num banquinho, ao lado da estátua do poeta João Cabral de Melo Neto, na margem ocidental do rio Capibaribe. Não sei se é margem ocidental, mas achei bonito esse negócio de “margem ocidental”, fica assim mesmo. São 9h13 da manhã, tenho um encontro marcado com um advogado, vou tratar da amiga presa, mas ele não chegou. Nada como esperar ao lado de um poeta, mesmo que seja de cimento. João Cabral está com a perna cruzada, descansando, olhando o rio que corta o Recife.

O sol está manso, aproveito para pegar uma corzinha. Os ônibus passam a todo vapor. Uma mulher vende água mineral, atravessa a rua e gritando “olha a água, água é um real”. Está tudo quieto, o dia vai começando a entrar no ritmo, quando escuto um homem falar bem alto, ao meu lado:

“Isso aqui não tem o menor sentido”.

Ele acaba de ler uma placa, que fica ao lado da estátua, com uma pequena biografia do poeta e trechos do poema “O cão sem plumas”.

Levanto e me aproximo. Ele tem uns 50 anos, está indignado.

“Eu fico doente com essas pessoas reconhecidas que escrevem essas besteiras”.

A irritação do meu amigo tem uma fundamentação poética e metafísica. Alguns trechos do poema ele considera absolutamente sem sentido.

“Veja isso. Ele diz que o rio é um cão sem plumas. Agora olhe de me diga: O Capibaribe tem alguma coisa a ver com um cão sem plumas?”

“Não faz o menor sentido”, respondo, só para jogar lenha na fogueira. João Cabral e seus aficcionados que me perdoe.

“A água do copo de água. Me diga se isso não é uma besteira?”

Pego meu bloquinho de anotações. Acabo de ganhar a crônica do dia. Ainda nem perguntei o nome do homem, e já sei que deve ser um inquieto, que briga até com a poesia que não entende.

“Dos peixes de água”, diz, lendo o poema pela segunda vez, agora em voz alta. “Todo mundo sabe que o peixe só pode ser da água. Ele podia ao menos botar um peixe de água doce”.

Me olha com atenção e desabafa:

“Hoje, quem tem valor, não vale de nada. O que é deixa de ser é, e o que não é, passa a ser”.

O homem saiu da reles zanga poética para a filosofia, e isso me deixa animado. Me lembrei das aulas de Lógica, na universidade, que nunca me ajudaram muito a compreender o mundo.

“A água do copo de água”, segue. “Pelo amor de Deus…”

Eu nem tenho o trabalho de falar nada, porque ele não se conforma com o que lê.

“Ele botou o copo com água na geladeira, depois tirou e ficou o formato, só pode ser isso”, completa.

Achei essa metáfora muito boa. O formato do copo na geladeira. Algo que congelou e ficou só na forma, ou na memória. Vou ter que perguntar ao Gustavo, que agora é professor de Estética.

“Tenho minhas dissertações todas escritas no jornal. Eu me oponho à legalização da maconha, contra os jovens irem para a cadeia mais cedo”, diz. Eu faço minha tarefa mais essencial: escutar.

Estou mesmo com sorte. Neste momento, vem passando o poeta performático Jommard Muniz de Brito, meu professor na UFPE, que sempre anda com poemas xerocados, para distribuir nos mais diferentes lugares da cidade. Faço uma saudação e digo que meu amigo está irritado com a poesia de João Cabral. Jommard lê todo o poema em voz alta, com aquela voz grossa e boa para recitais. Escutando bem, acho meio besta mesmo esse negócio da “água do copo de água”.

“Isso não é poesia, é um poema”, diz Jommard, e suspeito que levei um fora.

Meu amigo insiste: “E a poesia?”

“É a consciência crítica do poeta”.

Meu amigo: “Mas e a água do copo de água?”

Estamos neste colóquio, quando chega um homem magro, de boné puído, bigode a la Cantinflas. Usa roupa simples.

“É tudo poeta?”, pergunta.

A resposta de Jommard me deixa no céu:

“É uma poesia mais romântica - a fonte cor de rosa”.

São mais ou menos nove e meia da manhã, já somos quatro homens ao lado da estátua de João Cabral, discutindo os problemas da poesia e da criação. O primeiro, que abriu o diálogo, irritado com os versos de João Cabral, se chama Jade Barreto de Araújo, não terminou sequer a 6ª série e mora em Carpina. É motorista, e todo dia traz os alunos que estudam nas universidades do Recife. O que chegou é Luciano, que é pedreiro. Constrói casa, vende, constrói outra, vende, e vai tocando a vida. Fica escutando a discussão, e sai com esta:

“Pois quem gosta de poesia é poeta”.

“O que você acha de dizer que o rio Capibaribe é um cão sem plumas?, insiste Jade.

“Um cão sem plumas é um cachorro sem penas”, responde o pedreiro.

Ficamos em silêncio. Jommard dá explicações sobre a prosa e a poesia, chama atenção para metáforas, o que o poeta quer dizer, mas tem que ir embora. Ficamos os três, ao lado da estátua. Luciano diz que também gosta de compor umas coisinhas.

“Sou do alto Sertão, de Tabira. Gosto de cantar umas loas”.

Pedimos para ele cantar algo. Ele tem uma composição intitulada “O que me mata é a saudade do que fui no passado”.

Recita sua obra no formato do cordel. Saudade, sofrimento, amores, lembranças da família, da terra natal, esses temas universais. Termina, batemos palma. Do nada, olha pra mim e diz:

“Esse aí, de besta não tem nada”.

Penso em exigir explicações, mas a conversa tem outro rumo.

“Hoje não tenho um cruzeiro, por isso vivo comprando fiado”.

Pensei que era um pedido de dinheiro, mas era outra composição poética dele.

Jade aguarda nosso amigo recitar mais um trecho de sua obra, e volta à placa, onde está o poema cabralino.

“Uma fonte azul. Eu não entendo nada”.

Luciano: “Rapaz, eu não gostei disso não”.

Até eu começo a ficar invocado com o poema.

Luciano: “Lá onde a gente mora, se costuma dizer que quem faz de cachorro gente, fica de rabo na mão”.

Agradeço mil vezes por esta minha estranha obsessão de andar sempre com caderno e caneta nos bolsos.

“Fiz um verso escrito assim - tudo aqui passará”, emenda Luciano, agora já bem à vontade na conversa e deixando a timidez de lado.

Ele recita seu verso, e ao final me pergunta:

“Como é o nome do professor?”

Pergunto como ele sabe que sou professor.

“Essas sabedorias eu conheço de longe”.

Em desvantagem (estava só criticando), Jade diz que no Dia das Mães, fez um verso para elas.

“Mãe é como água de luz no deserto

Raio de luz em pleno Sertão”.

Com a vênia do poeta, “água de luz” é mais poético “água do copo de água”. O resto eu perdi, porque ele falou ligeiro demais. Luciano atacou com mais uma composição, e a manhã virou um imenso sarau popular.

Ao terminar, Luciano comentou:

“Aí ta certo. Agora, o que ele está falando aqui” - aponta para a placa com o poema de João Cabral - “é grego”.

“A pessoa tem pai e mãe, é rica”, emenda Luciano, que gosta de misturar assuntos e temas. Recita um poema para seus pais. Depois, informa que usa uma prótese no olho direito.

“Esse aqui não vê mais nem mulher bonita”.

“Uma poesia sem rima, não é poesia”, reclama Luciano.

“Raul Seixas se fazia de besta, mas sabia de tudo”, completa Jade.

Ficamos em silêncio. A mulher que vende água mineral segue gritando “olha a água, água mineral é um real”.

“A poesia deveria ter mais valor. Um professor deveria ganhar mais que um Ronaldinho Gaúcho”, diz Luciano.

Se é para não ter rumo mesmo na conversa, cito a estátua de Antônio Maria, que adoro, os dois não conhecem. Falo que ele é compositor, autor da famosa  ”Ninguém me ama”, uma fossa dos diabos. Jade começa a cantar, com uma voz afinada, melodiosa.

“…de fracasso em fracasso

A velhice chegando

E eu chegando ao fim”.

Canta com esmero, do início ao fim, sem errar uma sílaba. Termina, batemos palma. Ele começa a cantar outra:

“Hoje amanheci lembrando do amor que eu te dei…”

Resolvemos seguir em direção à Conde da Boa Vista. Jade segue cantarolando melodioso, o dia fica imensamente bonito, azul, a manhã da segunda-feira muda completamente o sentido. Um vagabundo literário, um motorista e um pedreiro, fora o pouso rápido de um poeta e professor. Assim, o dia fica mais fácil.

Chegamos à ponte, há uma dificuldade natural na separação. Nos abraçamos com afeto. Jade me olha com apenas um dos olhos enxergando e me diz:

“Você é uma pessoa, viu?”

São 10h33. O advogado deve estar em alguma audiência, fica para outro dia. Resolvo passar na estátua de Antônio Maria, na Rua do Bom Jesus, para um aceno breve. No caminho, passo pela estátua de Joaquim Cardoso. A cidade está cheia de poetas, vivos e mortos.

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Pequeno adeus a um grande Pastor

13 de agosto de 2008, às 12:15h por Samarone Lima

Conheci o Pastor Arnulfo Barbosa em 2002, quando trabalhei como consultor para o Unicef, no belíssimo projeto da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (ASA). Ele estava à frente da Diaconia, o braço social de 11 igrejas evangélicas de diversas denominações. O maior projeto da ASA era o de construir um milhão de cisternas no Semi-Árido Brasileiro, o que parecia um delírio. Outro dia, caminhando pelo Sertão, vi a cisterna de número 320 mil. A ASA hoje é uma entidade respeitada, com uma grande contribuição para a mudança do olhar sobre esta região. Não se trata mais de “combater a seca” ou coisas do tipo, mas “conviver” com o Semi-Árido.

Muitas das conquistas da ASA têm a mão e a sabedoria do Pastor Arnulfo, que abraçou a idéia e abrigou a ASA por alguns meses na sede da Diaconia, que comandava há mais de uma década. Morreu no dia 4 de agosto, aos 54 anos.

Estranha ironia esta: o Pastor morreu vítima de esquistossomose, uma doença típica da região que ele aprendeu a amar e cuidar.

Como toda saudade é feita de memória, guardo do Pastor uma incrível capacidade de refazer idéias, ponderar, buscar caminhos. Não é fácil, nos dias de hoje, encontrar pessoas em posição de comando que estejam dispostas a escutar e rever posturas. O Arnulfo fazia isso com rara doçura.

Tivemos algumas longas conversas, em seu escritório no primeiro andar da Diaconia. Quando tive que sair, ele lamentou. Pensava em outros projetos mais adiante, coisa que não voltou a acontecer. Foi uma conversa de despedida minha, que saía, mas não imaginava que seria a última.

No depoimento emocionado do seu filho, na Igreja Presbiteriana, ele recordou que Arnulfo tinha em mente que “a vida nos chama a repensar a vida”.

Foi um grande homem, o Pastor Arnulfo. Quem conviveu com ele, sabe disso. Lutou com as palavras, o diálogo, até o silêncio, para mudar conceitos e desfazer impasses.

Resumindo, fez sua parte - e bem feita. Botou sua parcela de amor para mudar o mundo.

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asd çlk asd çlk (final de uma crônica saudosa)

5 de agosto de 2008, às 10:24h por Samarone Lima

Sim, onde eu estava? Ah, falava da minha velha remington 15 (Quem não está entendendo nada, precisa ler a crônica anterior).

Foi graças a esta velha máquina, que não me intimidei ao chegar à turma de Redação IV, da Universidade Católica de Pernambuco. A professora era a lendária Lúcia Nóya, braba como o quê, e ainda se usava máquinas de datilografia nos laboratórios. Antes de levar alguns cascudos, tratei logo de mandar ver nos meus o que, quem, como, quando, onde e por quê?, as perguntas mais óbvias e bestas do Jornalismo. A habilidade herdada da minha velha máquina garantia mais tempo para raciocinar.

Quando cheguei ao estágio no Diário de Pernambuco, em 1992, a redação ainda não tinha sido modernizada, e aquelas máquinas velhas caíram bem nos meus dedos duros e calejados. Toquei bem a pelota graças à habilidade para datilografar, herdada das milhares de horas com a remingtom 15. Outro dia, encontrei uma lauda-padrão, do Diário, com as famosas 20 linhas.

Por conta desta formação, até hoje sinto falta do barulho de máquina de datilografia, e me espanto quando vejo alguma redação de jornal ou revista em meio ao silêncio dos computadores. Sempre achei lindo uma redação ruidosa, com telefones tocando, barulho de teclas imprimindo palavras e matérias. O Diário de Pernambuco, na época, era meio exagerado, porque bastava Graça Prado puxar alguma graça, que todos acompanhavam, numa gozação generalizada, e tinha hora que a gente parecia estar no Clube das Pás. Vieira era outro que não me deixava em paz, aos gritos de “quem era Samarone”, quando eu chegava com alguma camisa nova, comprada sob o impiedoso crediário de minha mãe, nas Casas Piu ou lojas da época, em Fortaleza.

Não sei o que é, mas o tlec tlec tlec é algo como o ruído primordial do meu ofício, que é o de escrever. Me faz bem, me sinto em casa. Lembro que durante décadas, foi o som que enfeitiçou e salvou a vida de gente como Fernando Pessoa, Guimarães Rosa e tantos outros. Num efeito clássico de compensação, até hoje digito nas teclas do computador com uma força incrível, e quando vou comprar um teclado, procuro o mais barulhento. Bom mesmo é escrever soltando fogo pelas ventas e vendo a palavra sair fresquinha, na hora, em cima do papel.

Como tem o “Clube do Fusca”, vou criar o “Clube da Máquina”, para juntar os apaixonados por máquinas de datilografia. Clube não, melhor “Confraria”, que é a cara dos meus amigos do Poço da Panela. “Confraria das Máquinas”. O nome está horrível, mas há nomes horríveis que dão certo, como Cafuringa, aquele ponta do Fluminense.

A gente se encontraria uma vez por semestre, daria aulas de datilografia, faria oficinas de conserto de máquinas velhas, sob o patrocínio da remington e da olivetti, fora a Hermes Baby, se viva for. Chamaríamos velhos escritores, para falarem sobre suas máquinas prediletas, levando-as para nosso deleite. Haveria troca de informações sobre como fazer a manutenção, o melhor óleo, onde comprar fita por melhores preços. Acho que estou numa fase chamada delírio, minha amiga Emília vai já me avisar. Fico por aqui.

Aviso aos meus singelos 16 leitores (Jorge Bandeira, para minha surpresa, frequenta este espaço), que aceito doações de máquinas velhas, remediadas, feridas e esgarçadas. Prometo cuidar, limpar e usar.

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asd çlk asd çlk (até encher a página)

3 de agosto de 2008, às 23:58h por Samarone Lima

Que eu lembre, colecionei poucas coisas na vida, todas elas bestíssimas: carteiras vazias de cigarro, que se transformavam em uma moeda corrente da maior importância, na infância, e canetas-tinteiro, dessas que vendem em coleções esporádicas, em bancas de jornais. A primeira colação, perdi em uma mudança desastrada, de Imperatriz, no Maranhão, para Pentecostes, no interior do Ceará, em algum ano indecifrável dos anos 70. Quem achar um tufo de cédulas de Continental e marcas afins, favor devolver, que será bem recompensado.

A outra coleção (de canetas-tinteiro), é um grande fracasso pessoal e poético. Tenho seis, cada uma mais bonita que a outra, mas sou vítima de um fenômeno ainda não compreendido por mim e pela ciência - só consigo usá-las na primeira carga. Depois, faço um redemoinho com a tinta, não consigo recarregar, mancho os dedos, papéis, me irrito com tanta burrice e volto á Bic preta, que é o Fusca de qualquer escritor.

Descobri minha terceira coleção, à beira dos 40 anos: máquina de datilografia.

Agora mesmo, estou escrevendo esta crônica numa deliciosa olivetti LETTERA 25, antes de passar para o computador (perdão, escrevo exatamente como está na máquina). As teclas são branquinhase e a fita é nova, comprada aqui no Cabo por R$ 2,00 (válida até novembro de 2007). Aqui vai um conselho: nunca confie em prazo de validade de fitas de máquina de escrever. A minha está vancida há nove meses, e continua escrevendo tudo.

Por essas artimanhas da providência divina, a poucos metros de onde moro, no Cabo, descobri um camarada que conserta tudo. Sua oficina é um amontoado de coisas velhas, deve ter até pedaços do Skylab, cacos de tudo, que ele um dia haverá de usar para compor algo, como fazem os poetas e artistas em geral. Descobri que lá, naqueles escombros, ele tem máquinas de datilografia. Uma vez por mês, faço minha visita de inspeção datilográfica.

Ele começa cobrando algo, mas vou dando jabs e ganchos, e no final do combate, mando uma esquerda e o preço cai pela metade. Esta aqui, onde escrevo, ficou por R$ 40,00 - após uma boa peleja.

Por precaução, tenho outra olivetti LETTERA 25, um pouco mais escura. É uma precaução, para o caso de uma quebrar.

A Helberg (Made in Holland), de ano incerto, é para deleite estético. Preta, pequena, compacta. Vem com uma caixa de ferro que serve de encaixe. Pelos meus cálculos, é dos anos 40, e foi usada por soldados escritores durante a II Guerra. Comprei numa feira em São Paulo, possivelmente da Benedito Calixto, e voltei para casa feito um menino que ganha a bola oficial e a camisa do clube, antes dos 8 anos.

Já são três, mas tem outras cinco.

A olivetti LETTERA 82, azulíssima, é menor e fácil de transportar, graças à caixinha que encaixa. Olhando sua beleza e facilidade para transportar, deve ter sido o notebook dos anos 70, um presente perfeito para o Dia dos Pais. Uso pouco esta pequenucha, porque a LETTERA 25 é mais macia.

A quinta máquina da minha vasta coleção é uma Hermes Baby, quase igual à LETTERA 82, só que tem um teclado mais anatômico, em forma de concha, que faz um bem enorme ao organismo. Além disso, tem aquele ferrinho na parte de trás, que serve para o camarada ver o que está escrevendo. Às vezes, o efeito é contrário, porque você vai vendo o texto horrível que está produzindo, e acha melhor parar. A Hermes Baby tem esse nome meio afrescalhado, é vermelha, e a indústria é brasileira, não sei se a mesma das gravatas Hermes. Julgo que não, mas aceito ajuda dos meus 13 leitores (eram 12, mas o Júlio Vilanova retornou de sua temporada na Europa e está acessando novamente, Deus é grande).

Aviso aos meus obcecados leitores: o encaixe da Hermes Baby na tampa é infinitamente melhor que o da LETTERA 82.

Em quantas estamos? Cinco? Então vamos à sexta: uma olivetti Studio 44. É daquelas máquinas para o indivíduo ter em casa, numa mesa dura e forte, porque pesa como o quê. Pensando bem, a olivetti já deveria me dar uma máquina, a título de compensação, pelo excesso de merchandising.

Acabo de descobrir, no cós da máquina, que ela também é nacional. Eu, pela minha santa ingnorância, julgava que era uma empresa italiana. isso tudo porque acho olivetti parecido com Melitta, Walita, Mesbla e Caravagio, todos italianos de nascença, salvo equívocos de minha vasta erudição em história da Renascença e marcas afins.

A sétima máquina terei que declinar o nome, porque está passando por uma revisão e lubrificação, igualzinho ao que a turma faz nos carros. Meu amigo cobra R$ 20,00. A máquina fica uma jóia, tinindo, só falta escrever sozinha. Só irei buscá-la na quarta-feira, e não vou segurar a crônica de hoje só por causa de um nome. Meus leitores não são tão obsessivos-compulsivos assim, apesar de nem todos serem bons do juízo.

A rainha

Falta a oitava máquina, a rainha do meu afeto, uma remington 15 (eu queria saber quem escolhia o número das máquinas de datilografia, em tempos remotos). É creme, simples, discreta e um pouco dura, sinal de que aguenta o tranco. Também é portátil, com uma tampa que encaixa.

É a máquina mais importante da minha vida, pelo motivo simples, óbvio e evidente da importância de qualquer coisa - ela me acompanha desde 1987, quando vim de Fortaleza, para me tornar recifense.

Não lembro onde a comprei, mas isso nem é o mais importante. Sei apenas que foi minha companheira fiel, nos anos que eu aguardava a primavera, no apartamento 312, da Casa do Estudante Universitário (CEU). Nela, escrevi artigos os mais diversos, que colocava semanalmente no mural da Casa, falando sobre coisas que eu discordava, arrancando muitas vezes artigos irados de resposta e desafetos que seriam sanados somente muitos anos depois. Os textos me levaram para o olho do furacão, e num desses desatinos do destino, acabei presidente da CEU, naquele louco ano de 1991, não sei como sobrevivi.

Foi nesta raçuda máquina que escrevi os trabalhos do curso de Educação Artística (UFPE) e Jornalismo (Católica). Os trabalhos do mestre João Dênys, do adorável Ricardo Bigi Aquino. Foi nela que escrevi uma peça inteira, madrugada adentro, no banheiro da CEU, para não acordar meus amigos de quarto. Era um trabalho de Marcos Camarotti, uma peça infantil sobre uma formiguinha, feita a partir de pedaços de diálogos dos colegas de turma. Por sinal, gostaria de saber por onde anda a Suzy, minha grande amiga de licenciatura, jamais concluída por causa de três disciplinas, foi mal, Borromeu.

A mais tarde, coloco a segunda parte. Agora deu um cansaço nos dedos. Não saia dai. Aliás, saia, mas volte.

Só para lembrar:

asd asd asd

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Quatro ingressos

28 de julho de 2008, às 9:03h por Samarone Lima

Estou mais uma vez na estrada, acompanhando as aulas-espetáculo de Ariano Suassuna. A cidade é Garanhuns, faz um frio danado e chove. Já entrei no teatro, falei com a produção, está tudo pronto para começar. Saio para ver o movimento do povo e encontro uma amiga. Ela está com quatro ingressos a mais. Os filhos não foram para o espetáculo, que será com o violeiro Oliveira de Panelas.

Pego os quatro ingressos e saio à procura de convidados. Serão os meus convidados para a aula.

Vou a uma barraca, duas senhoras não podem sair, por causa das vendas. Vejo uma moça, pergunto se ela quer ir, ela diz que sim.

“Não dê a ela não, meu filho, que ela tem problemas mentais”, me diz uma das senhoras.

Achei que era mais um motivo de dar o ingresso.

“Ela pode ter convulsões”, completou.

E daí? - foi o que pensei. De perto, ninguém é normal mesmo…

Dei um ingresso, a moça ficou muito feliz e entrou. Seu nome é Mariana de Sousa da Silva, 37 anos. Chamo moça porque ela parecia uma moça. Ao final do espetáculo, fui ao seu encontro.

“Tudo que ele falou, eu gostei. Já o violeiro, aí eu amei”, disse.

A mãe disse que a moça fica na APAE de manhã, mas não estuda. Disse que ficou “muito preocupada”, com esse negócio de ela assistir um espetáculo, com os problemas que tem.

Outros dois convites foram entregues a seu Evair de Souza, de 43 anos, e Bruno Duarte da Silva, de 16. Evair é o pai, Bruno é o filho. Os dois são pipoqueiros. Deixaram o carrinho com uma mulher. O pai voltou maravilhado.

“É uma cultura que a gente tem, e espero que nunca se acabe”.

Ele perguntou se o espetáculo vai para Pesqueira. Eu estava sem a lista, mas tinha quase certeza de que haveria espetáculo na cidade.

“Se Deus quiser, se ele for a Pesqueira, estarei lá”.

O filho, que está na sexta série (com 16 anos, Bruno!), me disse que depois da aula ficou “gostando mais do Brasil”. Ariano iria gostar de saber disso.

O último ingresso foi entregue a “Bacalhau”, um famoso torcedor do Santa Cruz. Ele desapareceu na paisagem, após a aula. Fica por isso mesmo.

Da aula, guardei uma comparação que Ariano fez com um poeta da arquitetura, Manoel de Lima Flores.

“Cada obra minha é um caco, que vai se juntando aos cacos outros”.

A humildade desse homem é uma oração.

ps. na quarta-feira, dia 30, a aula-espetáculo será na Colônia Penal Feminina do Bompastor. Quase 600 mulheres presas terão direito a duas horas de poesia e beleza. Estarei lá, buscando meus adoráveis anônimos

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